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Coluna SIM, É O BENEDITO - JOGOS DE FUTEBOL SEM TORCIDAS

 *Por Benedito Ferreira Marques

         JOGOS DE FUTEBOL SEM TORCIDAS

            Assisti a uma entrevista de um dos mais consagrados comentaristas de futebol, no Brasil, Juca Kfouri, e pasmei com uma resposta desconcertante à primeira pergunta: “Futebol sem torcida é como chupar uma bala sem retirar o invólucro”. Nada tão lógico! Depois da retomada de jogos transmitidos pelas TVs, incluí em minha programação de isolamento, sentar-me à frente de tela para alguns jogos de minha preferência. No primeiro jogo – confesso, sem vergonha – que não achei graça nessa invenção de torcida eletronicamente gravada e ligada em aparelhos adredemente instalados, para, de vez em quando, simular a presença maciça de torcedores das equipes rivais. Dizem que já é o “novo normal”! Não percebo vibração nos jogadores, que se empolgam apenas quando fazem gols. Aí vale tudo; abraços e até beijos não recomendados! No último jogo a que assisti, após a entrevista do famoso cronista de esportes,  revisitei um texto que escrevi, depois de minha aposentadorias compulsória na Universidade Federal de Goiás, o qual incluí num dos meus livros, a que intitulei “Vivências – Prosa e verso na sombra do ócio” (edição esgotada). O título que dei ao texto foi chamativo: “Óculos Escuros em Velórios”. Imaginei uma cena de perfil surrealista. Antes de começar o jogo, o árbitro sinaliza um minuto de silêncio, em homenagem a alguém importante, recentemente falecido. Todos os jogadores postados no centro do gramado sacam de seus uniformes um par de óculos escuro. O árbitro e auxiliares, também; até os técnicos e gandulas. De repetente, o Maracanã superlotado também se anima e os torcedores, inquietos e ansiosos, retiram de suas roupas vestidas (calça ou bermudas) os seus óculos escuros e os põem na cara, respeitosamente. Até se levantam, em sinal de respeito ao pranteado homenageado. Um silêncio sepulcral, por 60 segundos. Todos olham para o centro do gramado e vêem o “tapete verde” mais verde. Começa o jogo, e a cena se desfaz, rapidamente. A homenagem foi prestada e, agora, é guerra no campo. A personagem mais olhada e perseguida por chuteiras famintas passa a ser a bola, atriz principal do espetáculo. Não ganha cachê nem “bicho”, senão pontapés, mas é a principal estrela, protagonista de todas as cenas, até o fim do jogo, porque dela dependem os risos e choros ou resmungos lamuriantes. “Acabou” – grita o narrador. O juiz pega a “gorduchinha”, guarda o apito - às vezes até faz o sinal da cruz -, e a torcida fica alegre ou triste, a depender do resultado da peleja.

         Essa narrativa convida o leitor a refletir: por que as pessoas que comparecem a velórios usam óculos escuros? Não raro, até à noite. A primeira ilação que se retira é a de que o visitante “chorou”, copiosamente, e suas pálpebras podem revelar a ressaca da choradeira, à carpideira, causando, ainda mais, tristeza e sofrimento aos familiares que velam o corpo estendido dentro de um caixão. Mas, de repetente, outra especulação surge na mente do observador: “Ah! Pode ser a nova forma de luto”! A cerimônia corriqueira entrou na etiqueta do modismo social. Pode ser. O certo é que, ao observar a cerimônia de velórios pelos canais televisivos, o telespectador não consegue perceber se as pálpebras do visitante denunciam choros convulsivos, ao ponto de o obrigarem a colocar seus óculos escuros na cara. “Não, não pode ser “– repensa o curioso, em monólogo. Se for, isso se chama hipocrisia. Será?  O indagador responde para si mesmo, outra vez. “Se for hipocrisia, é uma tremenda “cara de pau”. E, nessas lucubrações efêmeras, conclui que tudo não passa de um modismo, facilmente assimilado pela sociedade.  Partindo dessa premissa, imagina que o cenário de um Maracanã inteiro, enfeitado de óculos escuros, por um minuto apenas, em homenagem a uma pessoa importante, não passa de uma imaginação infantil. Nada mais que isso! Na hora do gol (gritado ou berrado), os jogadores se abraçam e misturam suor e perdigotos cuspidos, combinação perfeita para o contágio inquerido. Fazer o quê?

         Volto à realidade, afastando-me da fantasia momentânea, e passo a pensar noutro cenário. Mais de 100 mil mortos estão merecendo um minuto de silêncio, antes do primeiro apito. Mas as arquibancadas estão vazias. Não há óculos escuros nos jogadores, nem no arbitro e nos seus auxiliares; nem   nos treinadores e reservas sentados em bancos separados; muito menos nos gandulas. Talvez fosse mais interessante que a bola fosse pintada de preto. Seria luto autêntico! Por que o minuto de silêncio em jogos sem torcida? Que homenagem é essa que não se sabe a quem é destinada?! Não se diga que a “cerimônia fúnebre” é para as famílias enlutadas, porque, se assim o é, faltam os óculos escuros no campo e nas arquibancadas, como se a homenagem fosse uma balinha chupada com embalagem e tudo, sem a doçura do caroço, na metáfora do Juca Kfouri. E continuará sendo assim, até dezembro/2020! - Alô, paraíbas! Quem vai querer? Teresinha! Roda, roda, roda...Lembranças do “Velho Guerreiro”!!!

SOBRE O AUTOR

BENEDITO FERREIRA MARQUES nasceu no dia 11 de novembro de 1939, no povoado Barro Branco, no município de Buriti/MA. Começou seus estudos em escola pública e, com dedicação, foi galgando os degraus que o levariam à universidade. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (1964), especialista em Direito Civil, Direito Agrário e Direito Comercial; mestre em Direito Agrário pela Universidade Federal de Goiás (1988); e doutor em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (2004). Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Comercial, atuando principalmente nos seguintes temas: direito agrário, reforma agrária, função social, contratos agrários e princípios constitucionais.NA Universidade Federal de Goiás, foi Vice-reitor, Coordenador do Curso de Mestrado em Direito Agrário e Diretor da Faculdade de Direito. Na Carreira de magistério, foi professor de Português no Ensino Médio; no Ensino Superior foi professor de Direito Civil, Direito Agrário e Direito Comercial, sendo que, de 1976 a 1984, foi professor de Direito Civil na PUC de Goiás. Acompanhou pesquisas, participou de inúmeras bancas examinadoras de mestrado, autor de muitos artigos, textos em jornais, trabalhos publicados em anais de congressos, além de já ter publicado 12 livros, entre eles “A Guerra da Balaiada, à luz do direito”, “Marcas do Passado”, “Direito Agrário para Concursos”; e “Cambica de Buriti”; entre outros

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