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Coluna SEXTA DE NARRATIVAS – O PARAPLÉGICO FRANCISCO, MEU EXTRAORDINÁRIO AMIGO ESPECIAL

 

O notável filósofo René  Descartes eternizou a célebre oração " Eu penso, logo existo ". Pensar é próprio do ser humano. Todavia existem dentre os pensadores alguns que trazem arraigado em suas ideias a emoção e o conhecimento capazes de absorver a essência da vida e, desta forma tocar profundamente o coração das pessoas levando-as a reflexão. Dedico-me  desde que enveredei na seara das Letras, a contar, a cantar e a chorar  o que Vi, vivi e as emoções que senti, as quais permanecem no meu relicário  mais profundo e afloram através das lembrança trazidas nas Asas da Saudade.

Hoje cedo, ao passar na frente da IGREJA Matriz de SANT´ANA, ao fazer a persignação, ou sinal da Cruz  que recebi de lição dos meus pais, lembrei-me do meu Amigo FRANCISCO, filho do Senhor SAMUEL, um  funcionário do antigo DCT - Departamento dos Correios e Telégrafos, no cargo de GUARDA-FIO, na época prestando serviços na nossa Buriti querida. Era o fiscal do Fio do Telégrafo que seguia da Agência do Correio local até à cidade de Chapadinha. FRANCISCO era paraplégico e se locomovia com o auxílio de duas muletas de madeira. Era muito tímido, dada as dificuldades impostas pela mazela que o impossibilitavam de correr, pular, jogar bola, igual a nós garotos da sua idade.

Ele escolheu, desde que chegou na nossa Terra, o terreno ao lado da  Igreja, hoje Largo de Sant'Ana  e a área do fundo da mesma igreja, entre a Sacristia e o Morro REI, onde existiam árvores que ofereciam sombra, frutas e passarinhos diversos.

Eu era amigo dos irmãos dele, Samuelzinho e Antonice e nunca havia me aproximado de Francisco, em razão de Ele ser  arredio, pelos motivos já apontados, até que numa tarde de Quinta-feira eu o observei subindo com dificuldade a ladeirinha em direção à Sacristia. Apressei o passo e o alcancei logo no inicio da subida e peguei na mão esquerda dele oferecendo o meu Apoio que ele aceitou com um certo brilho nos olhos e conseguimos chegar juntos no seu recanto preferido. Ele com os olhos cheios de lágrimas, disse-me : brigado , eu nem sei teu nome, nem tenho amigos! Abracei-o e disse-lhe: meu nome é Djalma e já sou seu Amigo, Ele enxugou o rosto com um paninho que usava para limpar as muletas suadas e sorriu aparentando  estar sentindo a ALEGRIA de CRIANÇA recebendo um presente de aniversário muito desejado e esperado.

Aquele foi o primeiro de muitos outros dias juntos e a partir daquela primeira tarde em que brincamos, inclusive subindo nos galhos mais baixos das árvores, eu o ajudando com as muletas, para que ele se impulsionasse com os braços. Quando eu estava de folga, nos dias posteriores, sinalizava para ele e íamos juntos, brincar de jogar petecas, castanhas, amêndoas que colhíamos das amendoeiras da Praça Matriz,  e esperarmos os vinvins, as pipiras pretas, verdes, pipiras  azuis e os rouxinóis que sempre apareciam a partir das quatro da tarde para se agasalharem e depois de muitos gorgeios e cantos, dormirem.

Eu e FRANCISCO tivemos uma convivência de irmãos e amigos por mais de dois anos e meio. Com ele eu tive lições de VIDA excepcionais, como  ser paciente, conformado com as intempéries  da vida e suportar a solidão.
Reclamou a falta de amigos,  quando nos apresentamos no nosso primeiro encontro, porém não  reclamou de qualquer outra coisa. Além da minha companhia e da minha Amizade, eu presenteei o meu Amigo Francisco com seis petecas ou bilhas de vidro, cinco contos de réis - cédulas imaginárias de carteiras de cigarros vazias - que eu ganhava do meu pai, um fumante de cigarros ASTÓRIAS e seis bois de frutos de Jatobá maduros.

A nossa história foi curta, pois numa tarde de outubro de 1959, eu estava ajudando a cortar capim para os nossos  animais, quando ouvi o badalar do sino da nossa Igreja anunciando a morte de uma CRIANÇA, e ao chegar em casa, minha prima Teresinha chorando me deu a trágica  notícia de que Francisco fora encontrado sem vida debaixo de uma árvore no seu Recanto Predileto. A Casa dele ficava do outro lado da Praça Matriz, exatamente na frente da minha. Lavei as minhas mãos e o meu rosto, que depois transformou-se num Rio de LÁGRIMAS doloridas pela morte dele e fui direto prestar-lhe a minha última solidariedade terrena. A Família dele foi embora depois de cinco meses.

 Meu caro FRANCISCO.

Lembrando com saudade sentida da Tua breve passagem  pela Terra dos Humanos e da nossa convivência, eu Te Homenageio com o TÍTULO IN MEMORIAN de MEU EXTRAORDINÁRIO AMIGO ESPECIAL!

SOBRE O AUTOR

É buritiense, ardoroso amante da sua terra, deu seus primeiros passos no velho Grupo Escolar Antônia Faria, cursou o Ginásio Industrial na Escola Técnica Federal do Maranhão e Científico no Liceu piauiense e no Liceu maranhense, bacharelou-se em Direito pela Faculdade de Direito/UFMA, é advogado inscrito na OAB/MA, ativo, Pós-graduado em Direito Civil, Direito Penal e Curso de Formação de Magistrado pela Escola de Magistrados do Maranhão, Delegado de Polícia Civil, Classe Especial, aposentado, exerceu todos os cargos de comando da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, incluindo o de Secretário. Detesta injustiça de qualquer natureza, principalmente contra os pobres e oprimidos, com trabalho realizado em favor destes, inclusive na Comarca de Buriti.

Um comentário: Leave Your Comments

  1. Boca de fumo na rua do Sol tá liberado enquanto o governador manda uns policiais, tá a Cel aberto

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