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Coluna SEXTA DE NARRATIVAS - JOÃO BIGODE, UM CAÇADOR MÍSTICO

Morador da Localidade Cocal, a uma légua do Povoado Laranjeiras o lavrador Raimundo Pereira da Conceição, popularmente conhecido por João Bigode, era genitor de uma prole invejável composta de três filhos e cinco filhas, a saber: Raimundo, José, Francisco, Francinete, Maria Cristina, Alzemira, Marinete e Maria da Luz. Orgulhava-se de ser pai de treiz fíos ômi e cincu fías mué, a quem dedicava muito cuidado e zelo. Em um certo dia, chegou no pequeno comércio do meu pai, onde tinha crédito, o famoso Fiado, comprou uma escova dental, um tubo de pasta Colipe, meio quilo de café em grão, uma rapadura, um pedaço de fumo baiano e um pacote de papilina pa módi fazê os cigárrus. Papai o parabenizou por ter ele comprado a escova e a pasta dentais, dizendo-lhe que era muito saudável escovar os dentes e a boca diariamente. Ele respondeu afirmativamente, no entanto esclareceu que era pus meuz fíos e pás mín-as fías, pá ficárim paricídus fíos de brâncus. Papai riu e não mais comentou. Chegando a sua casa, João Bigode muito compenetrado, chamou os filhos pela ordem de idade e começou a orientação sobre saúde bucal com muita autoridade e muito carinho na forma seguinte: Raimundim, Cinete, Crixtina, Zezim, Zimirim-a, Nete, Chiquin, Maríin-a, de ôje invânti, maincêu u dia, bênça papai, bênça mamãi,  péguim a iscôva, u túbu de paxta i iscová os dêntis. Dispôís díço, todu múndu tumá café. Nem a pasta e nem a escova duraram mais do que vinte dias de uso. O pai cuidadoso alegando falta de economia por parte dos filhos e filhas, resolveu que a família toda usasse mesmo folhas de Juazeiro para a higienização que era produto da natureza e muito mais barato. Um caçador notável e único na região conhecia os hábitos de todos os animais da Localidade em que morava, acompanhava-os pelo rastro e pelo cheiro, conversava com eles e conseguia chamá-los com assobios e fungados, como ele mesmo dizia, e era VERDADE. O Cocal era uma propriedade da minha Tia Geninha, João Bigode era seu compadre e Morador responsável pela Terra, na verdade um senhor Administrador e amigo. Tinha tanto conhecimento da Terra, quanto de todas as espécies viventes, animais e vegetais, pelo nome e a utilidade de cada um. Quando descíamos para o brejal inundado de Juçara, de buriti, de bacaba, de buritirana e também de Sucurís e Jacarés de variados tamanhos e variadas idades, erados, segundo o nosso herói místico, ele seguia sempre a nossa frente. Ao primeiro vociferar dos animais raivosos, ele respondia: UUR, AAR, Pátraiz, Sucuruiú BEXTAAA, É Eu i úsmeuzamigus, vão drumííi!

 Assim procedia se fossem Jacarés ou Onças todos os bichos se acalmaram. Nós ficávamos todos impressionados com a sabedoria, a coragem e o modo como aquele homem analfabeto, conseguira ser tão íntimo da Natureza, das suas criaturas, e discipliná-los tal qual um especialista ou realmente um ser orientado por uma divindade.

Colhidos os frutos, era hora de pensarmos na volta para a Casinha simples do nosso amigo e hospitaleiro Caçador. Ele nos apontava o local seguro para nós ficarmos sem a presença dele e nos dizia com uma certeza absoluta: cêiz fícum AQUÍ e num Siafáxtim, que eu Rô arrumá um um bíxo pá NÓIZ almuçá !

Ficamos aguardando a volta do nosso amigo para sabermos que animal ele traria para o almoço, certos de que não falharia. Um tatu, um mambira, um veado, uma paca, uma cotia, um jacu, uma nambu, o almoço estava garantido. Uma vez ele pegou um Tatupeba grande e um Macaco vivo e perguntou-nos, para mim e para o meu irmão Wilson, quase sempre estávamos juntos:  cêiz quérim prová carne de Macaco, é múntu da bôa! Recusamos, assustados, ao sentirmos tristeza no semblante do macaco que parecia implorar socorro. Ele percebeu a nossa piedade com aquela vítima e fez uma segunda proposta, levarmos o macaco prego para criarmos. Aceitamos sem discutirmos e ele nos deu orientações valiosas para domarmos a criaturinha simpática. Imaginando que não poderíamos contar com a aprovação imediata de Papai e de Mamãe, mas mantivemos a confirmação do Aceite. Depois de saborearmos o Tatu preparado no leite de Coco babaçu pela dona Alzemira, mulher do nosso amigo, seguimos a viagem de volta a Laranjeiras, levando um pouco de farofa da caça para casa e o nosso futuro amigo acomodado num cofo de palhas de pindoba, fabricação de João Bigode, que era também artesão. O bichinho demonstrava ALEGRIA ao receber os nossos medrosos carinhos.

Chegamos a casa com Cocalino e tivemos uma grata surpresa, Papai e Mamãe não nos recriminaram, apenas observaram que teríamos dificuldades com a alimentação e a moradia dele. Informamos que João Bigode nos dera as instruções sobre todos os cuidados com o nosso engraçado vivente. Sobre a residência dele, imediatamente fomos falar com o seu Zacaria Cassiano, um artista artesão de mão cheia, como era conhecido, nosso vizinho e também amigo, esposo da nossa tia Diquinha e ele muito prestativo começou logo a construir a casa de Cocalino, de tábuas de pequizeiro bem trabalhadas, que depois de pronta recebeu uma cama de pano, aprovada sem reclamação pelo morador ilustre. Dormia cedo da noite e acordava cedo da manhã, junto com as galinhas, como nos alertara João Bigode, que todas as vezes que vinha fazer compras na Quitanda de Papai, sempre o visitava relembrando o episódio da sua aquisição, elogiava a nossa ação e recebia de agrado, um pedaço de fumo baiano e uma rapadura, que ele tanto gostava. Em uma dessas visitas nos convidou para irmos dormir uma noite em sua casa para ouvirmos suas ixtóras cantadas, cujo convite foi aceito com muito interesse. Marcamos a ida em uma sexta-feira com a aquiescência de Papai e de Mamãe e no dia combinado, fomos levando redes, lençóis, pijamas, o pedaço de fumo e a rapadura, o presente que ele mais gostava de receber. Naquele dia ele alertou a sua esposa Zimira para servir o jantar mais cedo, duas Nambus fritas no azeite de babaçu com baião de dois, uma delícia. Após o jantar, já às sete horas da noite, João Bigode inicia a sua apresentação cantada, sobre um Cavalo alforriado do trabalho pesado, por idade. Teria este recebido a missão de expulsar uma família de macacos que estava roubando milho, melancia, macaxeira e feijão da roça de um fazendeiro, tendo o Cavalo se transformado numa armadilha de cordas amarradas as suas patas e deixado no meio da roça fingindo-se de morto. Os macacos chegaram para praticarem o roubo no horário costumeiro e vendo o Cavalo deitado, inerte, pensaram que ele estava morto. Resolveram então, orientados pelo chefe da família se amarrarem nas cordas que serviam de armadilhas, para tirarem o morto de dentro das plantações. Todos amarrados, foram surpreendidos com o Cavalo se levantando e correndo com eles presos às cordas, um desespero para a macacada. Começa finalmente esta IXTÓRA cantada. João Bigode termina de fumar um cigarro, afina a voz com um gargarejo de tiquira e inicia assim:

Éra um Carrálo  réeee, Quí num prextava mais pá trabaiá Tirô cárta de furría, Pá matá a maxacaríia O Carrálo réeea cumeça Corrêeeee , Xóru macaco Juãou Pái cigura o Carrálo aí adiênti Quí um páu quebrô min-á mãoú Grita o macaco Juáquim Pái cigúru o Carrálo aí adiênti Quí um páu quebrô meu fucim...

Segue a ixtóra cantada e em poesia nessa rima de João Bigodi, até serem quebrados todos os macacos ladrões. O Cavalo se transformou em um herói dos Cavalos e do fazendeiro. Nós aplaudimos o amigo João Bigode lá pelo cantar do galo, às três horas da madrugada deixando-o satisfeito como contador de histórias cantadas em versos. Retornamos para Laranjeiras encantados com mais esta proeza do nosso amigo.

 Cocalino viveu conosco por dez anos e morreu saudável, um idoso, considerando-se que um Macaco vive, segundo estudiosos, em média trinta  anos. O nosso místico amigo João Bigode continuou morando na localidade Cocal e participando da nossa vida, nos nossos períodos de férias escolares até quando a minha Tia Geninha vendeu a propriedade, dando-lhe uma compensação financeira merecida pela sua honesta administração, com a qual, já viúvo, os filhos todos independentes e casados, comprou uma casa no Povoado Palestina, onde viveu seus últimos dias, falecendo há quinze anos, deixando-nos muita SAUDADE,  uma valiosa e inesquecível história, além de uma lição vida preciosa.

SOBRE O AUTOR

É buritiense, ardoroso amante da sua terra, deu seus primeiros passos no velho Grupo Escolar Antônia Faria, cursou o Ginásio Industrial na Escola Técnica Federal do Maranhão e Científico no Liceu piauiense e no Liceu maranhense, bacharelou-se em Direito pela Faculdade de Direito/UFMA, é advogado inscrito na OAB/MA, ativo, Pós-graduado em Direito Civil, Direito Penal e Curso de Formação de Magistrado pela Escola de Magistrados do Maranhão, Delegado de Polícia Civil, Classe Especial, aposentado, exerceu todos os cargos de comando da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, incluindo o de Secretário. Detesta injustiça de qualquer natureza, principalmente contra os pobres e oprimidos, com trabalho realizado em favor destes, inclusive na Comarca de Buriti. 

6 comentários: Leave Your Comments

  1. Gente alguém sabe do dinheiro do mês de dezembro do pessoal da saúde ??

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  2. Será se ainda vamos receber o salário de dezembro ? 2020

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  3. VAO COBRAR O ARNALDO. ELE QUE FICOU COM O DINHEIRO QUE FICOU NA PREFEITURA.

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  4. Tá aí uma ótima resposta! Concordo plenamente!

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  5. Gente isso é sério estamos aguardando saber desse salário de dezembro de 2020 e até agora nenhuma resposta de nada, alguém sabe ????

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  6. Aliandro por favor nos dê uma resposta sobre esse salário de dezembro de 2020 vamos receber ???

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