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Coluna SIM, É O BENEDITO - EM DEFESA DA NEGRITUDE

EM DEFESA DA NEGRITUDE

         *Benedito Ferreira Marques

Confesso que não gostei da humilhação porque passou o “ex-quase-futuro” Ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli.  Não o absolvo pela falsificação do seu currículo, atitude reprovável que se agravou com as correções pontuais que fez, ao serem noticiados os fatos pela mídia.  Se o absolvo, concordo com o malfeito, e este não é o meu perfil.  Mas confesso – repito -, o episódio causou-me uma certa repugnância.

Também não reprovo o jornalismo investigativo, muito menos desconheço o seu importante papel na divulgação de fatos concretos inaceitáveis, principalmente os que permeiam o campo político, cujos atores são pagos por todos os que recolhem impostos. Dinheiro público é dinheiro público, razão por que a transparência em sua aplicação deve ser uma regra; não uma exceção. A imprensa livre tem razão em investigar e divulgar.

O fato, porém, podia ter sido rapidamente dissolvido, se não descambasse para o campo da especulação de racismo, de que se encarregaram certos comentaristas, como se quisessem punir, com o escárnio, um negro.  Já não bastava a relevância dada pelos veículos de comunicação ao Presidente da Fundação Palmares, que minimizou o regime escravocrata de quase 400 anos que imperou no Brasil   A postura negacionista do ocupante do elevado cargo também me causou repulsa, porque sua atitude arrogante afrontou a negritude. Foram duas situações envolvendo dois protagonistas de cor negra, que somente serviram para colocar no centro das discussões um tema que ainda perdura, a despeito da propalada “Lei Áurea”, de 13.5.1888. Uma lei com apenas um artigo – já que o segundo dispôs que ficavam “revogadas as disposições em contrário”, como se a escravidão tivesse sido instituída por lei. A auspiciosa lei poderia ter incorporado mais artigos, dispondo sobre o destino dos escravos libertos, pelo menos distribuindo-lhes terras para trabalharem. Ainda hoje se discute a demarcação de terras para comunidades descendentes de quilombolas, porque a Lei de 1888 não incorporou esse benefício, apesar da extensão territorial do Brasil.

Sempre que me detenho na análise dessa temática, não consigo desvencilhar-me de uma curta história que me foi contada, que ouso repassar neste espaço, sem qualquer escrúpulo. Contaram-me que, certa feita, no final do século XIX, nos arredores da então Vila Buriti de Inácia Vaz, num lugar chamado “Satuba”, um negro – certamente não escravo, alforriado ou beneficiário de uma das leis que suavizavam a escravidão   -, fez um gracejo a uma jovem branca, chamada Rosa, que passava em frente à sua janela. Ela reagiu com desdém: “você parece um sapo, de tão feio que é”.  O insulto mexeu com os brios do “mulato”, que reagiu, de pronto: “Vou te fazer um feitiço e vou te conquistar”.  Se fez ou não a mandinga, o certo é que o audacioso negro terminou conquistando a   moça de cor branca, provavelmente descendente de europeus. Do relacionamento fortuito, nasceu uma criança de cor tão escura, que assustou a parturiente, ao ponto de reagir: “Não vou criar isso, que mais parece um pedaço de breu”. A irmã de Rosa, penalizada, tomou a si a missão de criar o “crioulo”, justificando que o bebê não tinha culpa de ter nascido. E a criou. Quando adulto, tornou-se vaqueiro de um fazendeiro da época. Ganhava uma cria em quatro. Era assim a partilha. Começou a formar um pequeno rebanho.  Por ironia do destino, casou-se com uma donzela, também de cor branca. Desse enlace, nasceram dois filhos. Um deles, também já adulto e de cor menos escura, casou-se com uma cearense, igualmente de cor branca. Chamava-se Joaquina, que morreria envenenada por picada de uma cobra cascavel, ao colher o arroz na roça. O viúvo teve que criar seus filhos, até a idade adulta.  Cada um tomou seu rumo. Um deles também veio a casar-se com uma moça de cor clara. Por coincidência ou não, ele nascera num lugar chamado “Angico Branco” e ela, noutro lugar, chamado “Barro Branco”.

O “pedaço de breu” era chamado Vicente Caetano de Sousa, meu bisavô paterno.

 P.S. -  Voltarei a essa temática.


SOBRE O AUTOR

BENEDITO FERREIRA MARQUES nasceu no dia 11 de novembro de 1939, no povoado Barro Branco, no município de Buriti/MA. Começou seus estudos em escola pública e, com dedicação, foi galgando os degraus que o levariam à universidade. Possui graduação em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (1964), especialista em Direito Civil, Direito Agrário e Direito Comercial; mestre em Direito Agrário pela Universidade Federal de Goiás (1988); e doutor em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (2004). Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Comercial, atuando principalmente nos seguintes temas: direito agrário, reforma agrária, função social, contratos agrários e princípios constitucionais.NA Universidade Federal de Goiás, foi Vice-reitor, Coordenador do Curso de Mestrado em Direito Agrário e Diretor da Faculdade de Direito. Na Carreira de magistério, foi professor de Português no Ensino Médio; no Ensino Superior foi professor de Direito Civil, Direito Agrário e Direito Comercial, sendo que, de 1976 a 1984, foi professor de Direito Civil na PUC de Goiás. Acompanhou pesquisas, participou de inúmeras bancas examinadoras de mestrado, autor de muitos artigos, textos em jornais, trabalhos publicados em anais de congressos, além de já ter publicado 12 livros, entre eles “A Guerra da Balaiada, à luz do direito”, “Marcas do Passado”, “Direito Agrário para Concursos”; e “Cambica de Buriti”; entre outros.    

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  1. O texto do Benedito é muito cansativo. Com muitas inversões, podia escrever de forma direta e de forma coerente.

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